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Pantaneiros dizem que já sabiam do risco de catástrofe na região

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Representantes de organizações não governamentais (ONG) e entidades que atuam no Pantanal para minimizar os efeitos da seca e do fogo que já destruiu 3,461 milhões de hectares do bioma, disseram hoje (2), em audiência virtual realizada pela Comissão Externa da Câmara dos Deputados, que os sinais de que a região enfrentaria uma seca severa, com maior risco de incêndios, foram notados ainda no primeiro trimestre do ano. Eles afirmaram que, apesar de pedir providências às autoridades responsáveis, pouco foi feito.

“Por intuição, sabíamos que esta catástrofe iria acontecer”, disse o membro do Comitê Popular do Rio Paraguai e da ONG Fé e Vida, Isidoro Salomão. “Somos pantaneiros e pantaneiras e, desde que nascemos, vivemos nesta região da forma como o Pantanal nos permite viver”, acrescentou. Ele ressaltou que, já em fevereiro, algumas minas d´água de Mato Grosso estavam secas quando habitualmente deveriam estar abastecidas

“Já começávamos a conviver com a seca. E agora, estamos vivendo em um Pantanal de fogo, um Pantanal que traz todas as contradições possíveis. Não basta chegar aqui com muito dinheiro e fazer um tipo de trabalho que empobreça região. Para nós, está claro que combater o fogo exige o combate a certas formas de exploração]”, disse.

Coordenadora técnica do Instituto Homem Pantaneiro, a bióloga Letícia Larcher relatou que os brigadistas do instituto que administra a Reserva Particular do Patrimônio Natural Eliezer Batista, na Serra do Amolar, em Mato Grosso do Sul, começaram a combater os primeiros focos de incêndio em fevereiro.

“Estamos combatendo o fogo na Serra do Amolar desde fevereiro. Meu primeiro comunicado às autoridades é de 24 de janeiro, por ofício. Significa que a temporada seca, o momento do fogo que historicamente ocorre em agosto, setembro, na Serra do Amolar, chegou em fevereiro.”

Segundo Letícia, atualmente mais de 100 pessoas tentam apagar as chamas no interior e no entorno da Reserva Eliezer Batista. Entre eles, há brigadistas do próprio instituto, do Ibama, do ICMBio, bombeiros do Paraná e de Mato Grosso do Sul, além de voluntários.

“Apesar disso, ainda não vemos quando o fogo vai acabar. Olhamos para o Pantanal, para estas áreas que são refúgios da vida, patrimônios naturais da humanidade, e vemos que elas estão realmente ameaçadas”, disse.

A bióloga lembrou que não há previsão de chuva para os próximos dias e destacou a necessidade de esforços coordenados de trabalho preventivo. “Para o ano que vem, temos que atuar na prevenção. Considerando que o Pantanal está permanentemente sob efeito de ciclos e que a previsão para os próximos anos é de secas ainda mais intensas, teremos que contar com brigadas permanentes, equipadas e capacitadas a fazer o primeiro combate ao fogo.”

Catástrofe

Para o representante da ONG SOS Pantanal e da associação conservacionista Onçafari, o psicólogo Leonardo Gomes, existe a possibilidade de que as mesmas condições climáticas se repitam pelos próximos anos, o que vai exigir ações políticas e mudanças culturais.

“O que estamos vendo hoje é uma catástrofe, mas sabemos que a maior parte destes incêndios foi causada pela ação humana. Não é possível seguirmos com as mesmas práticas. Ainda que o uso do fogo seja uma prática cultural, que ele tenha seu papel, precisamos de uma reciclagem. Precisamos reaprender a empregar o fogo [em um cenário de mudanças climáticas]”, afirmou. Ele destacou a importância da fiscalização.

“Temos as informações necessárias para identificar onde cada foco de calor surge. Logo, é papel do Estado fiscalizar e punir quem quer que cometa um crime ambiental e melhorar a estrutura de prevenção e combate. Vemos equipes muito aguerridas, dedicadas, heroicas, mas o Pantanal precisa de mais estrutura, de mais postos avançados, de brigadas voluntárias locais treinadas e integradas ao sistema de proteção, pois o combate inicial ao fogo é essencial. Depois que o fogo atinge certas proporções não há mais estrutura e recursos capazes de contê-lo.”

Desastre

O secretário-executivo do Fórum Mato-Grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad), Herman Oliveira, defendeu a importância da atuação complementar das organizações e a necessidade de reforçar a participação da sociedade nas instâncias públicas responsáveis por definir as políticas ambientais.

“Temos que retomar a estrutura ambiental construída com a participação das organizações da sociedade civil, e que vinha sendo desmontada. Principalmente no que diz respeito à participação direta destas organizações nos conselhos e comitês que fazem parte do sistema nacional ambiental.”

Dificuldade

A coordenadora da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE) no Mato Grosso, Fátima Aparecida Moura, afirmou que os membros das organizações que já atuam junto às comunidades tradicionais e agricultores familiares mato-grossense desde 1987 constataram que o “momento difícil” agravou ainda mais os reflexos socioeconômicos da pandemia da covid-19.

“Há tempos alertamos para a necessidade de adotar um modelo de agricultura mais sustentável. A perda da biodiversidade e seus impactos no modo de vida das pessoas nos preocupam muito. Há regiões onde as famílias cultivam variedades centenárias de milho, cujas sementes são conservadas e trocadas entre os produtores. Com a chegada dos transgênicos já houve uma perda muito grande de sementes. Isso agora se agravou com o fogo.”

Fátima disse que entidades estão promovendo uma campanha para obter sementes que serão doadas aos produtores familiares. “É importante assegurar a possibilidade deles plantarem seus alimentos, que é o que garante a segurança alimentar não só de suas famílias, mas também daquelas que vivem nas cidades.”

Leis

O secretário-geral da seccional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em Mato Grosso, e representante do Grupo Amigos do Pantanal, Flávio José Ferreira, lembrou a importância da sociedade se preparar para o que está por vir.

Para o advogado, é preciso aprimorar a legislação ambiental e discutir a possibilidade de cobrar do agronegócio os recursos necessários ao fortalecimento da estrutura de proteção e conservação do meio ambiente.

“Mato Grosso é um estado rico onde o agronegócio é potente, a economia é pujante, porém, há muitos recursos nas mãos de pouca gente. É preciso discutir como as coisas vão ficar daqui para frente. Caso contrário, este cenário pode piorar muito. Como está a tributação do agronegócio? Para onde estão indo estes recursos? De que forma isto pode ser aplicado de forma preventiva [para equipar as equipes de fiscalização e de combate aos incêndios]?”

Socorro

O presidente da Fundação de Apoio à Vida nos Trópicos (Ecotrópica), Ilvanio Martins, relatou que está há mais de 60 dias na região. Para ele, chama a atenção a falta de coordenação entre as diversas ações que vêm sendo desenvolvidas em diferentes frentes.

“Tivemos que abastecer os corixos [pequenos reservatórios que se formam quando as águas começam a baixar em função do início da época seca no Pantanal], tamanha era a disputa entre os animais que buscavam água e alimentos.”.

Ele acredita que os responsáveis deveriam ter agido antes. “Trazer quatro, cinco equipes, não sei quantas caminhonetes ou pessoas, nada disso tem efetividade se não houver uma coordenação, um plano bem elaborado”

A audiência foi coordenada pela deputada federal Rosa Neide (PT-MT), integrante da comissão criada pela Câmara dos Deputados para enfrentar as queimadas. Ela disse que a comissão quer ouvir representantes de diferentes setores e dos governos federal e estaduais para elaborar propostas de leis.

“Como parlamentar, me indigno ao ver organizações sérias e comprometidas que fazem um trabalho complementar e serem alvo de ataques. Ninguém está surpreso com a tragédia já bastante anunciada.”

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Pesquisadores alertam para perdas de até 100% das plumas de algodão por ataque de Aphelenchoides

Nematoide que acomete a parte aérea da planta, ainda com poucos resultados de estudos, também é o vilão causador da Síndrome da haste verde e retenção foliar na soja, e apresenta maior perigo com incidência elevada de chuvas

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Estragos do fitonematoide em lavouras de algodão podem causar perdas, em alguns casos ,de 80% a 100% dos frutos, ou seja, das plumas.

Não é só o produtor de soja que deve se preocupar com o ataque de Aphelenchoides besseyi, nematoide que se alimenta de fungos presentes no solo e restos culturais e que parasita a parte aérea da planta. Na soja, causa a Síndrome da haste verde e retenção foliar (“Soja Louca II”), que leva a mais de 60% de abortamento das inflorescênciasMas ele não fica restrito à oleaginosa, os pesquisadores – a nematologista Rosangela Silva, da Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso, Fundação MT, e Santino Aleandro, da Agronema, consultoria nematológica, têm visto a campo grandes estragos do fitonematoide em lavouras de algodão, com perda em alguns casos de 80% a 100% dos frutos, ou seja, das plumas.

Um fator muito importante para quantificar o nível de infestação e multiplicação desse nematoide é o regime de chuvas. Se desde o início do plantio da cultura houve muita precipitação e com constância até o florescimento, segundo Santino, observam-se situações em que as perdas vão de 80 até 100% da produção de frutos. “O produtor não vai colher nada nessa área que foi atacada. É uma preocupação que se deve ter com a soja, mas também com o algodão”, destaca. Um dos agravantes apontados por ele são as regiões sob pivô, pois ainda que a chuva cesse é possível criar condições favoráveis “por conta da umidade oferecida pela irrigação”.

Situação em Mato Grosso

Referência em produção de algodão, Mato Grosso plantou na safra 2021/22, segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), uma área de cerca de 1,18 milhão de hectares. No Estado, o início da semeadura acontece de dezembro a fevereiro e a colheita a partir de junho, momento que possivelmente as lavouras implantadas mais cedo já estão sendo colhidas. “É a partir daí que o produtor vai verificar as perdas, visualizando até a presença de plantas que continuam vegetando quando deveriam começar a senescência. Ainda que ele possa utilizar o dessecante químico, essas plantas podem continuar vegetando”, pontua o pesquisador da Agronema.

Santino Aleandro, da Agronema, consultoria nematológica

Esse ano, os meses de janeiro, fevereiro e março foram chuvosos, mas dentro da média prevista, com o acumulado mensal na casa de 200 milímetros. No entanto, em abril, a quantidade de chuva caiu significativamente, ficando abaixo de 80 milímetros. “Essa redução influencia na presença dos sintomas de Aphelenchoides porque deixa de oferecer condição ideal para o desenvolvimento do patógeno”, conta Santino. Ainda assim, não se pode descuidar, já que ano após ano, de acordo com as condições climáticas, há maior ou menor incidência do problema.

Identificação recente

A Síndrome da haste verde da soja é relativamente nova. Seu agente causal foi identificado há quase uma década e, somente em 2017, a presença da doença foi observada no algodão, especificamente no município de Sapezal-MT. “Já sabemos que em áreas onde há o patógeno sem o manejo de plantas daninhas, o problema tende a ser mais agravado porque boa parte delas, principalmente as leguminosas e dicotiledôneas, multiplicam mais esse nematoide, permitindo que esteja não só presente no campo, mas em maior quantidade”, explica Rosangela.

Santino diz que o plantio direto traz uma série de melhorias para o solo e produção, mas, por outro lado, também oferece condições de manutenção desse fitonematoide, por causa da umidade e da palhada, que permitem a multiplicação de fungos. Estes, por sua vez, alimentam Aphelenchoides besseyi na entressafra. A introdução desse nematoide nas áreas em que ainda não há a sua presença também pode acontecer por meio do plantio de sementes forrageiras, especialmente a braquiária, “que não foi devidamente processada, que tenha restos de torrões e sem tratamento nematicida”.

A recomendação de ambos os pesquisadores é evitar, sempre que possível, a sequência de plantio de algodão em áreas que estavam com soja com histórico da Síndrome da haste verde. Também orientam para que, em plantações com grande infestação, adote-se o revolvimento do solo. A prática, mesmo ainda sem dados técnicos científicos de comprovação, é observada com bons resultados aliados à utilização de nematicidas em tratamento de sementes e/ou aplicação de algum produto foliar.

“Estamos em um momento inicial das pesquisas. Há vários testes com produtos químicos e biológicos sendo conduzidos. Ainda não temos uma posição técnica que ofereça um manejo com a certeza de um nível de controle satisfatório. A Fundação MT está com experimentos em andamento e esperamos em breve ter resultados. Por isso, fica o alerta para a máxima atenção às lavouras, seja de soja ou algodão”, completa a pesquisadora Rosangela.

Fundação MT: Criada em 1993, a instituição tem um importante papel no desenvolvimento da agricultura, servindo de suporte à classe agrícola na missão de dar vida aos resultados através do desenvolvimento de tecnologias aplicadas à agricultura. A sede está situada em Rondonópolis-MT, contando com três laboratórios e casas de vegetação, um centro de pesquisa local e outros seis Centros de Pesquisa Avançada (CAD) distribuídos pelo Estado nas cidades de Sorriso, Nova Mutum, Sapezal, Itiquira, Primavera do Leste e Serra da Petrovina. Saiba mais em www.fundacaomt.com.br.

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