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AMOR CONTEMPORÂNEO

O dia dos namorados no Brasil dos solteiros

Segundo dados do IBGE de 2022, já há mais brasileiros solteiros do que casados. E os divórcios se multiplicam…

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OPINIÃO

Junho chegou. Corações invadem vitrines, restaurantes oferecem jantares à luz de velas, propagandas vendem a promessa do amor eterno em dez vezes no cartão. Mas por trás desse verniz romântico, uma realidade pouco celebrada. O Brasil nunca teve tantos solteiros e nunca se divorciou tanto.

Segundo dados do IBGE de 2022, já há mais brasileiros solteiros do que casados. E os divórcios se multiplicam, escancarando um paradoxo: enquanto o comércio insiste no casal feliz de comercial de margarina, a vida real revela laços cada vez mais frágeis, passageiros, e um número crescente de pessoas que escolhem (ou são empurradas para) a solidão.

O mito do amor romântico e a realidade líquida

Amamos a ideia do amor. Torcemos pelos casais nos filmes, vibramos com reencontros impossíveis, desejamos finais felizes. Mas, no cotidiano, nossas relações não seguem esse roteiro. Os vínculos são curtos, os afetos instáveis, os encontros rarefeitos. O amor virou, muitas vezes, um produto com prazo de validade e, como todo produto, quando não agrada, é descartado.

O sociólogo Zygmunt Bauman chamou isso de “amor líquido”: relações que escorrem pelas mãos, sem consistência. Assim como os produtos de consumo, se não agradam, trocam-se. Quando a relação deixa de proporcionar satisfação, ela se desfaz, analisou Bauman. A lógica do consumo invadiu o território do afeto. “O amor moderno é uma armadilha: exige compromisso, mas desvaloriza a permanência.”. Uma frase curta dele, que diz muito sobre as relações do século XXI. E ela não veio sozinha.

Swipe, like, next: a estética da pressa

E aí surgiram os aplicativos de relacionamento — Tinder, Bumble, Happn, Inner Circle, entre outros. Mas vejam, eles não inventaram essa lógica das relações frágeis; apenas a colocaram na palma da mão. São vitrines de pessoas organizadas por geolocalização, onde se busca de tudo: sexo casual, namoro, um crush para conversar ou só passar o tempo numa segunda-feira a noite.

Desliza-se para o lado, julga-se uma vida por uma foto, uma bio e talvez uma mensagem. A oferta é infinita, e com ela, a ilusão de que o próximo perfil pode ser melhor. Mas quanto mais possibilidades, menos profundidade. E quanto mais conexões, maior o risco do esvaziamento.

Mesmo quem não está nos aplicativos de relacionamento vive sob o mesmo princípio. As redes sociais, de modo geral, nos conectam o tempo todo. Um like no Instagram, uma curtida despretensiosa, uma mensagem que começa no WhatsApp às 22h. A tecnologia encurta caminhos, mas também empobrece os vínculos. Facilita o encontro, mas dificulta a permanência.

Conexão não é sinônimo de vínculo

Nunca estivemos tão conectados. Nunca estivemos tão sós. Vivemos num tempo em que o “oi, sumido” substituiu a saudade, e o ghosting, desaparecer sem explicações, virou prática corriqueira. Fugimos do desconforto, da entrega, da vulnerabilidade. Amamos com o pé atrás. Com medo de parecer carente. Com medo de sofrer.

Queremos a intensidade das histórias que assistimos nas telas, mas escolhemos relações que não exigem profundidade. Buscamos laços duradouros com hábitos descartáveis. No fundo, cultivamos um ideal romântico com práticas emocionais de fast-food.

Um país que desaprendeu a amar?

O Brasil dos solteiros talvez não seja apenas um país de gente que desistiu do amor. Mas um país exausto. Cansado de investir em relações frágeis, ferido por expectativas irrealizáveis, saturado pela performance afetiva exigida pelas redes.

O Dia dos Namorados vai passar. Com ele, as promoções, os buquês e os jantares. Mas a solidão, essa continua ali, firme, no silêncio do quarto, na ausência de uma presença real, mesmo depois de postar a melhor foto no Instagram. Porque nenhuma curtida preenche a falta de um olhar que acolhe. Nenhum stories disfarça o vazio de um amor que não veio ou que não ficou.

No país dos solteiros, amar talvez seja um ato subversivo. Não por ser piegas, mas por exigir coragem. Coragem para ficar. Para insistir. Para não fugir na primeira crise.

No Brasil dos solteiros, amar não é conto de fadas. É ato político. É pele exposta. É risco. É coragem. E só quem tem coragem topa!  

Christiany Fonseca é professora efetiva no IFMT, Doutora em Sociologia e Cientista Política.

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OPINIÃO

ESTRUTURAS VIRAIS

A esmagadora maioria dos cidadãos conhece na pele, o quanto nosso corpo ainda nos representa, vestido ou despido

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Considero pouco representativo, ou até mesmo um pouco inexpressivo, dizer-se existir um racismo estrutural. Adjetivar quase que em exclusivo uma única característica de nós próprios, suaviza demais a real dimensão estrutural da nossa sociedade. Entendo que essa adjetivação estrutural deva também ser feita sempre que falamos de impunidade, medo ou do desconhecimento que nos assolam. Procurando não ser interpretado como preconceituoso ou generalista, alego-me a desenvolver o assunto primeiramente na minha pessoa em particular.

Eu sou estruturalmente racista? Não sei… Talvez nos genes, talvez por ter nascido em África, onde de imediato fui diagnosticado com essa terrível doença. Há vários anos que a combato diariamente aplicando um raciocínio dialético que me tranquiliza, mas que por si só não elimina o aparecimento de sintomas na minha área circundante. Com o seu elevado grau de agressividade a doença causa também em mim um sofrimento crônico com o qual, infelizmente, poderei ter de conviver até o final dos meus dias.

Eu vivencio impunidade estrutural? Sim, vivencio. Em grande medida por nunca ter sido punido pelos meus progenitores que me educaram, de dentro para fora, em todas as oportunidades que tiveram ou criaram para esse efeito. Não obstante o fervor da impunidade fruto da juventude, a minha subversidade e o meu olhar sobre o alheio permitiu-me não ser excluído do convívio humano que tanto prezo. Hoje, sem o abrigo de qualquer organização, sigo impune igual a muitos outros bem diferentes de mim.

Eu sofro de desconhecimento estrutural? Claro que sofro. Sofro em virtude de limitações cognitivas, sofro por ausência do chão da sala de aula e também pela imensidão de conteúdos desinteressantíssimos com que o meu espaço/tempo coletivo é sistematicamente desfocado. E suspeito que vá continuar a sofrer por inadaptabilidade congênita, por um ecletismo bem adubado e pelas desastrosas políticas de educação que se concretizam atabalhoadamente na lógica de que o conhecimento é um privilégio.

Eu tenho medo estrutural? Tenho vários. Um deles é de que há semelhança do que acontece com o trabalho que perde direitos para um empreendedorismo de obrigação, a educação venha também ela a perder direitos para uma expressividade artificial. Outro medo estrutural é que possa não ser mais licito eu aprimorar-me e que dessa forma tenha de me substituir compulsoriamente. Não escondo tratar-se de dois receios recentes que adoraria conseguir repassar a terceiros em virtude deles me instigarem a critica e a liberdade.

É-me agora mais fácil dizer que a esmagadora maioria dos cidadãos conhece na pele, o quanto nosso corpo ainda nos representa, vestido ou despido, bem como quanto também ainda toleramos escoar as nossas violências através da impunidade. Arrisco-me até a dizer que conseguimos entender que o desconhecimento e o medo caminham juntos desde os primórdios da humanidade e que agora os utilizamos como uma poderosa arma de subjugação.

Pior que não se trata somente de racismo, impunidade, medo ou desconhecimento. O machismo, a displicência, a economia a que servimos, entre outros aspectos que materializamos num contexto sócio biológico, são todos eles resultado inequívoco de nós mesmos. Produto revelador do vírus autodestrutivo que somos e que se extingue sem exceder a sua singularidade. Esperando agora também não ser interpretado como apocalíptico, entendo oportuno dizer o quanto considero urgente chamar-se os jovens para mais perto de nós. Eles podem ajudar-nos a aliviar o que estamos a fazer para com eles.

Rui Perdigão Administrador, Geógrafo, Presidente da Associação Cultural Portugueses de Mato Grosso.
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