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MDHC lança ação de enfrentamento ao estigma contra pessoas atingidas pela hanseníase durante conferência da ONU
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O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), por meio da Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SNDPD), lança nesta semana uma ação institucional voltada ao enfrentamento do estigma e da discriminação contra pessoas atingidas pela hanseníase.
A iniciativa integra o conjunto de medidas de reparação individual e coletiva destinadas às pessoas e comunidades afetadas pela política de internação e isolamento compulsórios adotada no Brasil ao longo do século XX e tem como objetivo ampliar o conhecimento da sociedade sobre a hanseníase, contribuir para a qualificação do debate público sobre a doença e enfrentar os estigmas historicamente associados ao seu diagnóstico. A proposta busca promover uma abordagem baseada em informação científica, direitos humanos e reconhecimento da memória histórica das pessoas atingidas.
O lançamento ocorre durante a programação da Conferência dos Estados Partes sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (COSP), realizada entre os dias 8 e 11 de junho, na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, nos Estados Unidos.
A secretária nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Isadora Nascimento, destaca que o combate à discriminação é parte fundamental do processo de reparação das violações de direitos vividas por pessoas e comunidades afetadas pela política de isolamento compulsório relacionada à hanseníase: “Não é possível falar em reparação sem enfrentar o preconceito que ainda acompanha muitas pessoas atingidas pela hanseníase. Por isso, estamos desenvolvendo ações de comunicação para ampliar o acesso à informação, valorizar a memória histórica e contribuir para desconstruir estigmas que, por décadas, limitaram direitos e oportunidades”.
Segundo a secretária, a iniciativa fortalece uma abordagem baseada em direitos humanos, reconhecimento histórico e inclusão social: “A hanseníase tem cura, mas o estigma muitas vezes permanece. Enfrentar esse legado é uma responsabilidade coletiva. Reparar histórias também significa promover visibilidade, reconhecimento e dignidade para pessoas que tiveram seus direitos negados”.
A iniciativa também está alinhada ao projeto de cooperação técnica entre o Governo do Brasil e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), voltado ao fortalecimento das ações de reparação individual e coletiva destinadas às pessoas atingidas pela hanseníase e às comunidades impactadas pelas políticas de isolamento compulsório. Entre as ações previstas pela parceria está o desenvolvimento de estratégias de comunicação para o enfrentamento do estigma e a promoção da memória histórica.
Memória e reparação
Durante décadas, a hanseníase esteve associada a percepções sociais marcadas pelo medo, pela desinformação e pela discriminação. No Brasil, pessoas diagnosticadas com a doença foram submetidas a políticas de internação compulsória em hospitais-colônia, frequentemente localizados em áreas afastadas dos centros urbanos.
Nessas instituições, milhares de pessoas foram separadas de suas famílias e comunidades, vivenciando processos de exclusão social que produziram impactos profundos em suas trajetórias de vida. Os efeitos dessa política ultrapassam o campo da saúde pública e são reconhecidos como graves violações de direitos humanos.
Estudos sobre a experiência dos hospitais-colônia apontam que o regime de isolamento compulsório produzia processos de apagamento da identidade e restrição da autonomia das pessoas internadas, reforçando estigmas que persistem até os dias atuais.
Embora o modelo de segregação tenha sido superado e existam tratamentos eficazes para a hanseníase, o preconceito ainda representa um dos principais obstáculos para a eliminação da doença como problema de saúde pública e de direitos humanos.
Política pública
O Governo do Brasil conduz, como prioridade, uma política permanente de reparação às pessoas atingidas pela política de isolamento e internação compulsórios relacionados à hanseníase, que inclui o pagamento de pensão especial e o reconhecimento institucional das violações de direitos ocorridas a partir da década de 1920.
A política foi instituída pela Lei n.º 11.520/2007, que garantiu, inicialmente, o benefício às pessoas submetidas à internação compulsória em hospitais-colônia até 31 de dezembro de 1986.
Em 2024, com a publicação do Decreto n.º 12.312, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o direito à pensão especial passou a contemplar também filhos e filhas separados de seus pais em razão da internação compulsória, além de pessoas submetidas ao isolamento domiciliar ou em seringais.
“A análise dos requerimentos de pensão especial é realizada pela Comissão Interministerial de Avaliação, que fundamenta suas decisões em acervos documentais históricos, incluindo registros de hospitais-colônia, preventórios, documentos administrativos e depoimentos de testemunhas. Além de subsidiar os processos de reparação, esse patrimônio documental orienta as ações de comunicação que o governo brasileiro tem produzido, contribuindo para preservar a memória das violações, ampliar o acesso à informação e combater o estigma que ainda afeta pessoas e comunidades atingidas pela hanseníase”, destaca o diretor dos Direitos da Pessoa com Deficiência da SNDPD/MDHC, Adenilson Idalino de Sousa.
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Texto: E.G./T.A.
Edição: G.O.
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Audiência pública debate construção do Plano Nacional das Culturas dos Povos Indígenas
A Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados realizou, nesta quarta-feira (10), audiência pública para debater a construção do Plano Nacional das Culturas dos Povos Indígenas (PNCPI). O encontro reuniu representantes da Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural (SCDC), do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), lideranças indígenas, especialistas e parlamentares para discutir diretrizes, desafios e estratégias para a consolidação da política.
O debate evidenciou que o plano vai além da formulação de uma política pública cultural. As participantes defenderam o PNCPI como um instrumento de reconhecimento, valorização e reparação histórica diante dos séculos de apagamento das identidades, línguas, saberes e territórios indígenas promovidos pelo Estado brasileiro.
Cultura como modo de vida
Um dos consensos da audiência foi a compreensão de que a cultura indígena não se limita às manifestações artísticas ou folclóricas, mas está presente em todas as dimensões da vida dos povos originários.
A secretária nacional de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas, Geovana Mandelão, destacou que cultura e existência são indissociáveis.
“As culturas indígenas são o sistema de vida de cada povo. A nossa cultura é o nosso território, é a nossa memória, é a nossa espiritualidade, é a forma como educamos nossas crianças, é resistência”.
Na mesma direção, a diretora do Museu Nacional dos Povos Indígenas, Juliana Tupinambá, ressaltou que a cultura se manifesta em todas as formas de viver e ser dos povos indígenas.
“A cultura para nós está na nossa espiritualidade, na memória, na história do nosso povo. A cultura está presente em todo o nosso modo de vida, de viver e de ser. Então, é uma manifestação expressada não somente quando estamos ecoando um cântico, não é expressada somente quando estamos em rituais. A nossa cultura somos nós”.
Representando a Federação do Povo Huni Kuĩ, Joana Munduruku reforçou a centralidade dos povos indígenas na formação do patrimônio cultural brasileiro.
“Nós não fazemos cultura, nós somos cultura. O maior patrimônio que este país possui são os patrimônios indígenas. Eu sou especialista nessa área de patrimônio e posso dizer que o conjunto de patrimônios que existe no Brasil é indígena”, disse.
Território, memória e resistência
Outro tema central foi a relação profunda entre cultura e território. As participantes destacaram que a terra não representa apenas um espaço geográfico, mas um elemento fundamental para a preservação dos saberes, da memória, da espiritualidade e dos modos de vida indígenas.
A artista e ativista Daiara Tukano afirmou que a resistência dos povos indígenas está diretamente ligada à preservação de suas culturas e territórios. “Nós somos a continuidade de um projeto de resistência num país que foi fundado por políticas que visavam acabar com nossas culturas. Não se trata apenas da beleza, se trata de uma relação de mundo, de sermos família desse mundo, parentes das pedras, dos peixes e de toda essa vida”.
A audiência também ressaltou que os territórios indígenas funcionam como espaços de preservação da memória coletiva e de transmissão de conhecimentos ancestrais, contribuindo para a proteção da biodiversidade e para o enfrentamento das mudanças climáticas.
Plano construído com protagonismo indígena
A secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Márcia Rollemberg, destacou que a construção do plano representa um passo fundamental para o reconhecimento da diversidade que forma o país.
“A construção deste Plano Nacional das Culturas dos Povos Indígenas é uma das missões mais importantes que temos hoje. Ela representa a possibilidade de dar conta de um Brasil profundo, de um Brasil plural, de um Brasil originário, reconhecendo a diversidade cultural que constitui o nosso país e fortalecendo a participação dos povos indígenas na formulação das políticas públicas”.
Outro ponto amplamente defendido foi a necessidade de garantir o protagonismo dos povos indígenas na elaboração do plano, respeitando o direito à consulta prévia, livre e informada, previsto na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Representando a Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural (SCDC), a diretora de Promoção da Diversidade Cultural, Karina Miranda, destacou o caráter democrático e transformador da proposta. “Uma sociedade se torna mais democrática quando é capaz de reconhecer a riqueza de suas diferenças e transformá-las em caminhos comuns para o bem viver. O Plano Nacional das Culturas dos Povos Indígenas nasce desse compromisso”, completou.
Política de Estado
Durante o debate, a deputada federal Célia Xakriabá ressaltou a necessidade de que o Estado brasileiro reconheça os povos indígenas como produtores de conhecimento, ciência e pensamento.
“Antes do Brasil da coroa, existe o Brasil do cocar. Cultura para a gente não é somente o que a gente faz, cultura é o que a gente é. Nós não queremos que o Estado brasileiro nos veja apenas como folclore, nós queremos que nos veja como detentores de ciência, filosofia e pensamento”.
O consultor da Unesco, Daniel Iberê, reforçou a dimensão política da luta dos povos originários pelo reconhecimento de seus direitos culturais.
“A dignidade não vive de joelhos. Nós, povos originários, nos erguemos uma vez mais, porque quem disse que essa maneira de governar o mundo é a nossa? Quem disse que tudo está perdido quando a nossa coragem recusa a humilhação?”, questionou.
Ao encerrar a audiência, a deputada Jandira Feghali destacou a importância de construir uma estratégia que permita a aprovação do plano no Congresso Nacional. “A demarcação de Terra Indígena não vai pela geografia, vai por muito mais do que isso. Tem outros símbolos, outros significados. É preciso que a gente construa uma estratégia que nos permita de fato chegar do outro lado com uma aprovação, com uma comemoração e uma grande celebração”.
Próximos passos
A proposta do Plano Nacional das Culturas dos Povos Indígenas seguirá em debate no Congresso Nacional e junto aos povos indígenas de todo o país. A expectativa é que o processo de construção fortaleça a participação social e consolide uma política de Estado voltada à proteção dos saberes, das línguas, dos territórios e das expressões culturais dos povos originários brasileiros.
Fonte: Ministério da Cultura
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