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NA ERA DO FOGO

Novos paradigmas para a gestão e manejo das unidades de conservação no Pantanal mato-grossense

Pode não parecer, mas diante desse cenário há esperança, porque o fogo, assim como nós, humanos, é um elemento da natureza e um dos responsáveis pelo surgimento e propagação da vid

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OPINIÃO

Especialista fala em necessidade de uma análise integrada dos territórios ocupados para que o manejo do fogo resulte em vida

O uso do fogo pela humanidade permitiu grandes saltos na história da sua expansão pelo planeta. Acelerou a ocupação de quase todos os cantos terrestres e está na base do desenvolvimento de períodos determinantes do nosso modo de existir no mundo. Ao longo de tantos séculos, o emprego do fogo é, até hoje, um aspecto marcante da cultura humana em seus mais diversos arranjos, seja em grupos autóctones, comunidades rurais, ou ainda como ferramenta de ocupação de áreas naturais a serem destinadas a outros usos a partir da fragmentação dos ecossistemas. A diferença é que estamos em uma nova era, cujo traço mais categórico é a mudança do clima.

Nessa perspectiva, é necessário encarar a impermanência das culturas e a nossa adaptabilidade para atravessarmos esse novo tempo de outras formas possíveis. Há quem nomeie de Antropoceno, isto é, um momento histórico resultante de um modo de vida imediatista centrado no ser humano, gerando impacto negativo em escala planetária. E há autores que nomeiam o momento atual em que vivemos de Piroceno, uma perspectiva centrada no fogo, sobre a forma como os humanos continuam a moldar a Terra, como bem define Stephen J. Pyne, cientista e autor de referência na investigação sobre o fogo.

Pode não parecer, mas diante desse cenário há esperança, porque o fogo, assim como nós, humanos, é um elemento da natureza e um dos responsáveis pelo surgimento e propagação da vida na Terra, assim, existem caminhos possíveis para uma relação mais positiva entre fogo e humanos. As regiões onde temos acompanhado incêndios de grandes proporções, como a Austrália, Califórnia, Portugal, Espanha e Sibéria, nos contam que nossa forma de estabelecer territórios necessita de uma análise integrada para que o manejo do fogo resulte em vida e não em destruição em grande escala. O uso cultural do fogo hoje precisa levar em conta o novo contexto climático.

Em 2020, o maior incêndio florestal já registrado na história do Brasil, fez do Pantanal, uma das maiores planícies alagáveis do mundo, um imenso conjunto de cicatrizes, onde o fogo varreu extensas áreas rurais com comunidades, empreendimentos, fazendas e unidades de conservação. Na maior reserva privada do país, a Reserva Natural Sesc Pantanal, o impacto foi sem precedentes, porém, amenizado pelos quase 30 anos de manejo da unidade e pela força desmedida de uma equipe de brigadistas, guarda-parques e demais colaboradores.

Contextos como estes têm conduzido outras formas de manejar as paisagens. Historicamente, populações mantinham o uso do fogo sob controle para cultivar suas áreas no ritmo previsível das estações. Por muitos anos, o uso do fogo foi evitado em áreas naturais protegidas no mundo todo, considerando seus efeitos nessas áreas, destinadas a manter ou recuperar paisagens. Porém, com os efeitos das mudanças no clima cada vez mais acentuados, os quais desencadeiam condições mais extremas de escassez hídrica, se fez imprescindível vislumbrar novas perspectivas à cultura do uso fogo. Surge então o manejo integrado do fogo, conhecido pela sigla MIF, uma abordagem de gestão dos territórios rurais e de unidades de conservação que consiste em uma importante mudança de paradigma.

O pressuposto essencial dessa abordagem é a articulação entre três aspectos desse mesmo elemento: cultura, ecologia e manejo do fogo. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), referência principal do tema no país, o manejo integrado do fogo é uma abordagem já consolidada em outros países que considera estes três aspectos de modo interdisciplinar, para propor ações integradas que visam garantir a conservação e o uso sustentável dos ecossistemas e a melhoria da go­vernança sobre o território. Neste entendimento, o manejo integrado do fogo, a partir de uma análise do contexto socioambiental, compreende um conjunto de decisões técnicas e de ações articuladas entre si, que buscam: prevenir, detectar, controlar, conter, manipular, usar ou não usar o fogo em uma determinada paisagem, com vistas a atingir metas e alcançar objetivos pré-estabelecidos.

Inaugurando esse novo tempo para a gestão e manejo das unidades de conservação, em especial no contexto do Pantanal mato-grossense, a Reserva Natural Sesc Pantanal assume a fronteira dessa nova abordagem somando a isso o trabalho realizado nos quase 30 anos de sua existência baseado essencialmente no desenvolvimento social. Sendo essa também a base fundamental do MIF, a reserva desenvolveu um processo inédito de elaboração de um Plano de Manejo Integrado do Fogo, seguindo os pressupostos do roteiro para elaboração do Plano de Manejo Integrado do Fogo das Unidades de Conservação Federais do IMCBio, lançado em 2022. Reunindo representantes dos diversos grupos sociais locais, que ocupam as áreas do entorno da reserva, foram facilitados diálogos para troca de saberes, experiências e percepções para desenharmos juntos uma nova forma de atuar na terra, tendo o fogo como centralidade do debate em busca dos caminhos para o meio de vida das pessoas que habitam nessa região do Pantanal.

Com esta missão, o Plano de Manejo Integrado do Fogo da RPPN Sesc Pantanal apresenta um percurso possível para as boas práticas de manejo, não se limitando apenas às unidades de conservação, mas com caminhos em construção que podem inspirar novas abordagens e fazeres, em benefício deste que é um bioma de importância mundial.


*Cristina Cuiabália é bióloga, doutora em Ciência Ambiental e gerente geral do Polo Socioambiental Sesc Pantanal

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OPINIÃO

ESTRUTURAS VIRAIS

A esmagadora maioria dos cidadãos conhece na pele, o quanto nosso corpo ainda nos representa, vestido ou despido

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Considero pouco representativo, ou até mesmo um pouco inexpressivo, dizer-se existir um racismo estrutural. Adjetivar quase que em exclusivo uma única característica de nós próprios, suaviza demais a real dimensão estrutural da nossa sociedade. Entendo que essa adjetivação estrutural deva também ser feita sempre que falamos de impunidade, medo ou do desconhecimento que nos assolam. Procurando não ser interpretado como preconceituoso ou generalista, alego-me a desenvolver o assunto primeiramente na minha pessoa em particular.

Eu sou estruturalmente racista? Não sei… Talvez nos genes, talvez por ter nascido em África, onde de imediato fui diagnosticado com essa terrível doença. Há vários anos que a combato diariamente aplicando um raciocínio dialético que me tranquiliza, mas que por si só não elimina o aparecimento de sintomas na minha área circundante. Com o seu elevado grau de agressividade a doença causa também em mim um sofrimento crônico com o qual, infelizmente, poderei ter de conviver até o final dos meus dias.

Eu vivencio impunidade estrutural? Sim, vivencio. Em grande medida por nunca ter sido punido pelos meus progenitores que me educaram, de dentro para fora, em todas as oportunidades que tiveram ou criaram para esse efeito. Não obstante o fervor da impunidade fruto da juventude, a minha subversidade e o meu olhar sobre o alheio permitiu-me não ser excluído do convívio humano que tanto prezo. Hoje, sem o abrigo de qualquer organização, sigo impune igual a muitos outros bem diferentes de mim.

Eu sofro de desconhecimento estrutural? Claro que sofro. Sofro em virtude de limitações cognitivas, sofro por ausência do chão da sala de aula e também pela imensidão de conteúdos desinteressantíssimos com que o meu espaço/tempo coletivo é sistematicamente desfocado. E suspeito que vá continuar a sofrer por inadaptabilidade congênita, por um ecletismo bem adubado e pelas desastrosas políticas de educação que se concretizam atabalhoadamente na lógica de que o conhecimento é um privilégio.

Eu tenho medo estrutural? Tenho vários. Um deles é de que há semelhança do que acontece com o trabalho que perde direitos para um empreendedorismo de obrigação, a educação venha também ela a perder direitos para uma expressividade artificial. Outro medo estrutural é que possa não ser mais licito eu aprimorar-me e que dessa forma tenha de me substituir compulsoriamente. Não escondo tratar-se de dois receios recentes que adoraria conseguir repassar a terceiros em virtude deles me instigarem a critica e a liberdade.

É-me agora mais fácil dizer que a esmagadora maioria dos cidadãos conhece na pele, o quanto nosso corpo ainda nos representa, vestido ou despido, bem como quanto também ainda toleramos escoar as nossas violências através da impunidade. Arrisco-me até a dizer que conseguimos entender que o desconhecimento e o medo caminham juntos desde os primórdios da humanidade e que agora os utilizamos como uma poderosa arma de subjugação.

Pior que não se trata somente de racismo, impunidade, medo ou desconhecimento. O machismo, a displicência, a economia a que servimos, entre outros aspectos que materializamos num contexto sócio biológico, são todos eles resultado inequívoco de nós mesmos. Produto revelador do vírus autodestrutivo que somos e que se extingue sem exceder a sua singularidade. Esperando agora também não ser interpretado como apocalíptico, entendo oportuno dizer o quanto considero urgente chamar-se os jovens para mais perto de nós. Eles podem ajudar-nos a aliviar o que estamos a fazer para com eles.

Rui Perdigão Administrador, Geógrafo, Presidente da Associação Cultural Portugueses de Mato Grosso.
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