8,5 MILHÕES DE REAIS
Governador do MT quer doar terreno público à entidade privada
O terreno pertence do governo do estado e iria para uma associação de promotores, entidade de classe da categoria, uma espécie de sindicato
JURÍDICO
O governador do Mato Grosso, Otaviano Pivetta (Republicanos) decidiu doar um terreno avaliado em R$ 8,5 milhões para uma instituição privada e causou a ira de integrantes do Ministério Público.
O motivo da crise: com cerca de 12 mil metros quadrados, o terreno pertence do governo do estado e iria para uma associação de promotores, entidade de classe da categoria, uma espécie de sindicato.
Em reação, um grupo de promotores e procuradores capitaneado pelo ex-procurador geral de Justiça, José Antônio Borges Pereira, pediu uma investigação contra o governador por suspeita de improbidade administrativa.
A representação foi feita à 11ª Promotoria, especializada em defesa do patrimônio público, mas foi encaminhada ao procurador geral do MPMT, Rodrigo Fonseca. A assessoria do MPMT disse à reportagem que ele ainda não recebeu o pedido de investigação.
O Metrópoles procurou o governador e sua assessoria por telefone, correio eletrônico e redes sociais no sábado (20/6) e no domingo (21/6).
A decisão de doar o terreno ocorreu apenas um mês após Pivetta assumir o governo do MT com a renúncia de Mauro Mendes (União) para disputar uma vaga ao Senado nas eleições de outubro.
A doação é para a Fundação Escola Superior do Ministério Público de Mato Grosso (Fesmp), mantida por uma entidade de classe dos promotores e procuradores do estado, a Associação Matogrossense do Ministério Público (AMMP). Funciona como se fosse um sindicado, portanto, uma instituição privada.
“(…) justifica-se a deflagração de procedimento investigatório por órgão de execução ministerial (…) para apurar se as tratativas encetadas para a doação com encargo, mediante dispensa de licitação de terreno (…) à Fundação Escola Superior do Ministério Público (…) caracterizam os atos de improbidade administrativa definidos (…) bem como resulta em dano ao erário.”
Representação dos promotores ao MP-MT
O terreno de 12 mil metros quadrados fica na avenida na Avenida Desembargador Milton Ferreira Mendes, no Setor “C”, no Centro Administrativo de Cuiabá (MT).
O local é próximo à sede das Promotorias da Capital (foto em destaque). A avaliação de R$ 8,5 milhões foi feita por um laudo da Secretaria de Planejamento do Estado. A área seria desmembrada de um terreno maior, já existente.
Contrapartidas são “cláusulas abertas”, dizem promotores
A proposta de doação foi encaminhada para a Assembleia Legislativa, que precisa concordar com o ato.
A justificativa do projeto de lei assinado pelo governo é que Federação Escola do Ministério Público (Fesmp) irá ganhar um terreno milionário, mas deverá construir no local uma faculdade de direito num prazo de três anos.
Entre as contrapartidas, a faculdade deverá fornecer, gratuitamente e todos os anos, dois seminários ou treinamentos para os servidores do estado e fazer 100 atendimentos jurídicos à população. Também deverá destinar uma quantidade indefinida de vagas para pessoas de baixa renda ou oriundas de escolas públicas.
Genericamente, a proposta fala que a contrapartida inclui pesquisas “sobre temas relevantes para o estado de Mato Grosso”, “parcerias com escolas públicas para ações de educação jurídica e cidadania”. A biblioteca deverá ser aberta à comunidade.
O ex-procurador-geral, contudo, e colegas do MP disseram que essas contrapartidas são “cláusulas abertas” sem medidas exatas mensuráveis para saber se valem o empenho de doar um terreno de R$ 8,5 milhões.
“Os encargos especificados no projeto de lei (…) apresentam cláusulas abertas, cuja exequibilidade se condiciona a pactuação posterior entre doador e donatário, fragilizando a pretendida autorização legislativa.”
Representação
Os procuradores e promotores destacam que não há detalhes como a quantidade de pessoas a serem treinadas nesses dois seminários, a quantidade de bolsas de estudos, o número de pesquisas, o tamanho da biblioteca e as parcerias com as escolas.
A suspeita nos bastidores da promotoria é que o governador propôs a doação como forma de “se aproximar” da sociedade de classe do MP. Além disso, a doação empodera o atual grupo que comanda a entidade privada.
O projeto dispensa a licitação. Procuradores e promotores consideram isso um desrespeito à legislação. Segundo eles, o correto seria o governo do Estado fazer uma licitação na modalidade de leilão. Quem oferecesse mais pelo terreno teria direito de comprá-lo do Estado de Mato Grosso – que receberia o dinheiro e não doaria nada a ninguém.
Por isso, eles concluem: “Inviabiliza-se a doação da área (…) em violação expressa ao regime jurídico de gestão patrimonial da Administração Pública do Estado de Mato Grosso.”
O projeto de lei segue em análise na Assembleia Legislativa de Mato Grosso. Não há relatório sobre a proposta, de acordo com a tramitação no site da Casa.
JURÍDICO
TJ concede aposentadoria a desembargador investigado pelo CNJ
Magistrado estava afastado desde março por decisão da Corregedoria Nacional de Justiça, que apura suspeitas de venda de decisões judiciais
O Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) concedeu aposentadoria voluntária ao desembargador Dirceu dos Santos, que estava afastado das funções desde março deste ano por determinação da Corregedoria Nacional de Justiça (CNJ). O ato foi publicado nesta terça-feira (17) e garante ao magistrado proventos integrais e paridade plena, benefícios previstos na legislação para integrantes da magistratura que cumprem os requisitos para aposentadoria.
A aposentadoria foi assinada pela presidente em exercício do TJMT, desembargadora Nilza Maria Pôssas de Carvalho, e passa a valer a partir da data de publicação do ato. A decisão foi aprovada em sessão extraordinária do Tribunal Pleno.
Dirceu dos Santos integrava a 3ª Câmara de Direito Privado do TJMT e foi afastado cautelarmente pelo corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell Marques, no âmbito de uma investigação que apura suposto recebimento de vantagens indevidas em troca de decisões judiciais.
Segundo a Corregedoria Nacional de Justiça, as investigações apontaram indícios de que o magistrado teria intermediado atos decisórios por meio de terceiros, entre eles empresários e advogados. A apuração também identificou movimentação patrimonial considerada incompatível com os rendimentos declarados pelo desembargador.
De acordo com informações divulgadas pelo CNJ à época do afastamento, a análise de dados bancários e fiscais apontou movimentação superior a R$ 14,6 milhões em bens nos últimos cinco anos. O órgão também informou que foram identificadas diferenças entre a evolução patrimonial e os rendimentos oficialmente declarados, especialmente entre 2021 e 2023.
Além do afastamento, a Corregedoria determinou diligências no gabinete do magistrado no Tribunal de Justiça de Mato Grosso, com apoio da Polícia Federal, para coleta de arquivos digitais e espelhamento de equipamentos eletrônicos utilizados pelo desembargador.
Ao justificar a medida cautelar, o CNJ afirmou que o afastamento tinha como objetivo preservar a credibilidade do Poder Judiciário, garantir a continuidade das investigações e manter a confiança da sociedade na magistratura. O órgão ressaltou, contudo, que a medida não representava julgamento antecipado nem reconhecimento de culpa.
Mesmo com a aposentadoria concedida pelo TJMT, as investigações conduzidas pela Corregedoria Nacional de Justiça continuam em andamento.
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